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Está em cartaz no circuito comercial o documentário Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil, dirigido por Marco Del Fiol.

Filmado no Brasil entre 2012 e 2015, o documentário retrata uma busca da artista plástica sérvia pela conexão entre arte e espiritualidade. Além de mostrar as maravilhas naturais dos lugares visitados, ela também apresenta suas experiências com a religiosidade brasileira como, por exemplo, o trabalho e as cirurgias espirituais realizadas pelo médium João de Deus, em Goiânia, o sincretismo religioso da Bahia, rituais de ayahuasca realizados na Chapada Diamantina, incorporações no Vale do Amanhecer, no Distrito Federal, além de um grupo de xamanismo de Curitiba.

O resultado do recorrido de cerca de 6.000 km pelo Brasil é uma mistura de roadmovie, cinema direto, performances e filme etnográfico que registra os processos de apropriação artística e humana de Abramovic.

O diretor, Marco Del Fiol, se especializou em documentários realizados com o mínimo de equipe e equipamento. Nesse formato, realizou trabalhos para a MTV Brasil, Associação Cultural Videobrasil, Canal Futura e Centre Pompidou. Além de Espaço Além, ele assina a direção de Segundo Movimento para Piano e Costura(2011) e Mau Wal: Encontros Trauzidos (2002). No momento ele trabalha na produção de Marina Abramovic in Brazil, documentário sem data para lançamento.

Em Espaço Além,Abramovic compartilha com o espectador tudo o que está pensando e sentindo, ou seja, não só a espiritualidade é objeto desse documentário, mas também os sentimentos da artista, seu monólogo interior, onde ela oscila entre a descrição do que está vivendo e a lembrança de experiências passadas, como outras viagens místicas realizadas em países asiáticos. A pergunta que ela provoca é: a arte pode ser um veículo de expansão de consciência?

A poeta e produtora cultural, Cris Rangel, comenta que ficou bastante interessada em assistir a esse documentário. “Mais por conta da oportunidade de ver a diversidade religiosa do Brasil do que pela própria Marina. Acho que os trabalhos do começo da carreira dela eram interessantes, mas ao longo do tempo ela foi se tornando pop demais, um pouco apelativa, acho ela supervalorizada. ”

Porém, a artista tem sua parcela de fãs no Brasil, que legitimam a mistura de arte e espiritualidade. A estudante de artes plásticas Marina da Silva, conta que frequenta terreiros de umbanda há muito tempo e que enxerga uma relação muito grande entre as performances de Abramovic e os rituais. “A espiritualidade sempre foi uma questão muito forte e presente na minha vida e quando comecei a conhecer melhor o trabalho da Marina me senti contemplada por ver obras que transpassavam espiritualidade, e não de uma forma pueril, muito pelo contrário. A espiritualidade não como tema, mas sim como suporte para a performance. ”

O documentário foi produzido Casa Redonda e a distribuição está a cargo da Elo Company.

 
Logo no início da projeção Adaline afirma, que odeia ver um talento desperdiçado. Podemos dizer o mesmo sobre um bom argumento. Não que A Incrível História de Adaline, não seja eficiente naquilo que se propõe, é um romance. Mas com uma ideia tão interessante, é difícil não imaginar ou esperar algo mais.

Adaline Bowman (Blake Lively) nasceu na virada do século XX, e viveu uma vida normal até os 29 anos, quando sofreu um acidente de carro. Desde então a protagonista parou de envelhecer misteriosamente. Ao perceber que sua condição poderia transforma-la em um material de pesquisa, Adaline passar a viver em movimento, mantendo um laço distante apenas com a filha Flemming (Ellen Burstyn).

A situação muda após seis décadas de solidão quando a protagonista conhece o jovem filantropo, Ellis Jones (Michiel Huisman, o Daario Naharis de Game of Thrones). Por quem, com incentivo da filha já em idade avançada, decide mudar sua rotina de isolamento. Adivinhou quem pensou que conhecer a família do rapaz, que tem Harrison Ford como pai, e manter seu segredo é mais difícil do que parece.

Segue-se aí pelo caminho do tradicional romance, o medo do comprometimento (nesse caso agravado por sua condição), os segredos e uma ou outra consequência de uma vida tão extensa. Tudo superado é claro pela força do amor.

Mas, e o medo de ver mais pessoas que morrer, a tristeza por aqueles que já perdeu? Isso sem falar do misterioso (mas cientificamente explicável em 2035!?) incidente que a tornou eternamente jovem? Sim essas coisas incomodam Adaline, por uma ou duas cenas, antes de a grande questão de sua vida ser tornar Ellis, e o segredo que mantém dele. Mesmo os flashbacks da vida da centenária protagonista, alardeados em belos posteres de cada época, são escassos e rápidos. Mal dá para notar que o diretor resolveu abordar cada época como se filmaria naquele tempo, em película e câmera na mão em 1908, lentes esféricas nos anos 30 e 40, e com visual Cinemascope nos anos 50.

Quanto à protagonista, à produção dá conta de apresentar ótimas caracterizações para Lively em diferentes épocas. Trazendo-a ao século XXI, com o glamour de outras eras. Adaline tem os conhecimentos e a postura de alguém que viveu 107 anos, mas não a sabedoria. Sua filha parece compreender muito mais da vida, que ela. Se isso é um erro da construção do personagem, ou a consequência de ser "eternamente jovem", ainda não descobri.

Pessoalmente gostaria de ver mais da vida de um protagonista que não envelhece através dos tempos (mas, Forever já foi cancelada) e menos da mulher que vive na mesma época que nós. Apesar do gostinho de "quero mais", A Incrível História de Adaline, tem produção impecável, roteiro bem desenvolvido, e um elenco eficiente. Um romance que foge dos clichês dos gêneros graças à esse pano de fundo pouco explorado, o segredo da protagonista, e ao glamour que a personagem traz consigo de outras épocas.

ESTA VIDA

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


CINEMA 

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...
 
É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...